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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Aprendiz de viajante

Al Berto - um poema do poeta Al Berto direto do Blog Casa dos Poetas

Um dia li num livro:

«viajar cura a melancolia».


Creio que, na altura, acreditei no que lia.

Estava doente, tinha quinze anos.

Não me lembro da doença que me levara à cama,

recordo apenas a impressão que me causara,

então, o que acabara de ler.

Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes

e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto,

persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.



A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar.

Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos,

mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite...

Avancei sempre, sem destino certo.

Tudo começou a seguir àquela doença.

Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti.

Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas,

apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude.

Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha;

vi crepúsculos e noite sobre um rio, amei a existência.

Dormia onde calhava; no meio das dunas, enroscado no tojo,

como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo,

em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...

e quando regressei, com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.

Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida,

se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidiana.

Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida.

Caminha, assim, com a leveza, de quem abandonou tudo.

Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,

no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.

A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,

ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.

O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,

não se confunde com nenhum outro.

Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos,

purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil;

e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.

O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz,

os astros, as águas, os peixes e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas.

Aprendeu a nomear o mundo.

Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada;

sabe que o homem não foi feito para ficar quieto.

A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue,

mata-lhe a alma - estagna o pensamento.

Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água.

Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo,

se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele,

o una de novo ao Universo.

Al berto

em Anjo Mudo

5 commenti:

Marcelo Cortimiglia on 16 de dezembro de 2008 19:17 disse...

Embriaguemo-nos de viagens, jornadas para lugares distantes e não tão distantes, novidades e redescobertas, lugares de prazeres e rotinas, cenários de cartão postal e janela...

Daniela Scheifler on 16 de dezembro de 2008 19:20 disse...

8-)))) Tin-tim!

Marcelo Cortimiglia on 16 de dezembro de 2008 19:27 disse...

... porque viajar não é simplesmente ir a um destino, mas transpôr o comum e ordinário para sorver de um lugar e de um tempo que não são nossos... e embriagar-se da diferença, do novo, do que nos pertence visto sob outros olhos...

Do mesmo modo, ao se beber um cálice de vinho, nosso corpo, nossa mente e nosso espírio são apropriados por um alguém que não nos pertence, que é diferente, novo...

A viagem e o vinho nos permitem ver a nós mesmos com outros olhos.

Daniela Scheifler on 16 de dezembro de 2008 19:36 disse...

hehehehehehehe

Aquário, aquário!

tu bebes o vinho e depois diz: sai deste corpo que não te pertence! 8-))))


O Marcel Proust, xará teu (ou tocaio, se preferires) disse certa vez:

'A verdadeira viagem de descoberta consiste em não procurar novas paragens, mas em ter novos olhos'

Fabi de Oliveira on 17 de dezembro de 2008 11:33 disse...

;)...adorei esse post!

 

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